Crítica a uma afirmação.
Crítica a uma afirmação.
“Mesmo sabendo, não é sempre que lembramos que o ponto de onde se avista o espetáculo faz toda a diferença no que dele se percebe.” Helena Katz.
Estranho como a crítica de dança Helena Katz não consegue aplicar ao seu olhar a relatividade do observador sugerida por si mesma nesta frase. Mais de uma vez observei, em seus textos, uma afirmação que demonstra essa falha na aplicação da relatividade.
Apesar de uma crítica positiva ao espetáculo “Lugar do Outro”, espetáculo de meu amigo e companheiro de anos de trabalho Alex Ratton com seu grupo Damas em Trânsito e os Bucaneiros, Helena afirma que os representantes de uma “…geração que descobriu, nos anos 1990, a improvisação como possibilidade de dramaturgia para a dança”, possui “…deficiência estrutural (…), que é a falta de entendimento sobre o que seria o rigor artístico necessário para a sua produção.”* . Porém acredito que essa afirmação só pode ser feita por alguém incapaz de lembrar que o ponto de onde se avista um espetáculo faz toda a diferença. Ou ainda, o ponto de onde se avista o entendimento sobre o que seria o rigor artístico necessário para sua produção faz toda a diferença.
Mas é em Helena Katz que falta tal entendimento. O rigor artístico desse segmento está em conseguir dançar através da sensação de um osso, está em se relacionar com o chão de forma macia, em expor pensamentos e sensações pela abstração de um repertório pessoal e único, que é valorizado por não atingir o mesmo desempenho em diferentes corpos, é valorizar o indivíduo a ponto de perceber erros como acertos, defeitos como qualidades e vice versa, é entender e pesquisar inúmeras técnicas de comunicação e sutilezas cênicas, tornar-se um técnico em leitura de idéias, dúvidas e movimentos de seus parceiros e estar absolutamente treinado a responder a tudo isso prontamente. Acredito que ela não saiba mensurar o entendimento desses rigores técnicos e artísticos. Na realidade não representamos a improvisação como dramaturgia, mas somos através dela representados, somos pesquisadores de pesquisas, cênicas e corporais profundas e não temos nenhuma falta de entendimento sobre o que seria o rigor artístico necessário para nossas produções. Não digo que chegamos ao rigor necessário, acredito que como diriam Deleuze e Guatarri sobre o “Corpo sem Órgãos”: “A ele não se chega, não se pode chegar, nunca se acaba de chegar a ele”. Mas temos o entendimento.
Falta entendimento da relatividade do olhar em Helena. Para um Contatista, ou bailarino de Contato Improvisação, pode parecer que Bailarinos Clássicos tem um trabalho de chão truncado, um toque sem escuta ao parceiro, percepções sinestésicas destreinadas entre outras coisas, e na mesma moeda bailarinos clássicos podem enxergar Contatistas com movimentos sem linhas, sem alongamento, sem firmeza, clareza…enxergam as faltas técnicas. Mas será que pra um Contatista não ter linhas bem definidas em seu corpo é uma falta de entendimento? Ou para um bailarino Clássico não saber pelo toque onde está a coluna do parceiro é uma falta?
Acredito a deficiência estrutural nesse segmento está nos olhos esquecidos do ponto que avista de Helena Katz. Pois não é só uma questão dela não entender quais são os rigores artísticos deste segmento, ela não é capaz de identificá-los. É preciso um Contatista para saber a diferença entre duas pessoas dançando e rolando juntas no chão e duas pessoas dançando Contato Improvisação, assim como não sei identificar uma ponta de pé de Ballet bem feita. A “Improvisação Dança Teatro”, técnica brasileira criada por Cristiane Paoli Quito e Tica Lemos, é mais complexa que o Contato Improvisação, e apropriado dela, o intérprete-criador-pesquisador pode misturar quaisquer outras técnicas, cênicas e/ou corporais e criar seu próprio repertório artístico e corporal. Acredito que essa técnica seja o carro chefe desse tal “segmento”. Para conhecer a deficiência estrutural desse segmento Helena precisaria conhecer essa estrutura a fundo, e a afirmação dela prova o contrário. Não digo que ela não pode ser sensível a perceber algum problema em um espetáculo, e ela é sensível, como qualquer outra pessoa a entender os trabalhos dessa geração de diferentes formas, ora gostando ou não. Mas identificar a deficiência de uma geração inteira de artistas improvisadores, e ainda por cima identificar a deficiência como sendo a falta do entendimento do qual seria o rigor artístico necessário para suas produções, é dizer que ela, Helena Katz, é quem tem esse tal entendimento.
Como um artista dessa geração, eu afirmo: Helena Katz não sabe qual é nossa deficiência, e também não sabe o que consideramos como rigor artístico necessário ou mesmo do entendimento do mesmo, para nossas produções.
E essa afirmação faço como artista desse segmento, mas não como representante, represento somente a mim.
*a pequena edição que fiz no texto, que aparece aqui entre aspas, tira a relação do espetáculo criticado, mas mantém o sentido da afirmação relativa a tal “segmento” ou “geração”.Diogo Granato
A Crítica:
Corpos que tiranizam os olhares
Lugar do Outro propõe reflexão a 32 espectadores tirados do anonimato da plateia
Helena Katz – O Estado de S.Paulo
Mesmo sabendo, não é sempre que nos lembramos que o ponto de onde se avista o espetáculo faz toda a diferença no que dele se percebe. Assistir Lugar do Outro é viver no corpo essa experiência de forma muito clara.
Acomodada em oito plataformas móveis, cada qual com quatro assentos, a plateia vai sendo deslocada pelo espaço vazio do quarto subsolo do Sesc Pinheiros, onde a Cia. Damas em Trânsito e os Bucaneiros apresenta, até 14 de setembro, seu novo espetáculo, às terças e quartas, às 21 horas.
Trata-se de uma experiência oferecida a somente 32 espectadores por noite. Nela, a reflexão sobre o lugar que o outro ocupa se instaura já no momento em que, ao sentar-se, você deixa de ser plateia anônima, e torna-se parte de um grupo. A você e seus companheiros de plataforma serão ofertadas as mesmas oportunidades e as mesmas perdas na observação do que vai se passar. Somos “depositados” por um tempo em um lugar, e depois empurrados para lá e para cá, em um roteiro que vai armando e desmanchando formas distintas de espacialidades, mas sem mexer na relação palco-plateia, que permanece lá, mesmo não existindo um palco formal. A plateia passa a fazer parte, mas somente como parede móvel a delimitar as formas que o espaço vai tomando.
Ao contrato de observador de fora que a plateia geralmente estabelece nos teatros, aqui soma-se um outro traço, o da passividade: nós sentados e sendo conduzidos para onde não escolhemos, em um roteiro já determinado do que e de como vou ver. A mobilidade imposta às plataformas-riquixás edita o olhar de seus “passageiros”, que se tormam corpos-câmeras, enquadrando a dança que se oferece. Uma desconfortável relação de poder se escancara: vestidos de preto, como os manipuladores de teatro de bonecos ou de sombras, trabalham duro empurrando os pesados “riquixás”, aparentemente submetidos a essa função. Todavia, o que fazem em nós, tiraniza nossa percepção. Quem escraviza quem?
Em Lugar do Outro, a companhia não abandona seu interesse em continuar a explorar a relação corpo-arquitetura-som a que chama de “dança de ocupação”, pois ocorre em espaços abertos. Em 2008, por exemplo, com Puntear, transformou muretas, jardins e escadas da Casa das Rosas em cenário. Todavia aqui, o foco se adensa em um ponto específico: pergunta sobre a possibilidade do viver isoladamente, e vai montando diferentes tamanhos de distâncias entre os 32 da plateia, entre cada um deles, entre nós e a obra.
Uníssono. Enquanto cada qual está sozinho, faz algo singular, mas quando os quatro intérpretes se reúnem, transformam-se em um uníssono de uma mesma coreografia. Nesse momento, o jeito próprio de dançar se atenua, como se não fosse possível mantê-lo quando se está junto, ecoando, aliás, o uníssono dos conjuntos em que a plateia foi transformada. Não surge nenhum traço da multidão, aquele tipo de agrupamento estudado, entre outros, pela dupla Antonio Negri-Michael Hardt, que publicou, em 2004, um livro sobre o assunto.
A companhia nasceu em 2006, dentro do Estúdio Nova Dança, o endereço, na cidade de São Paulo, da geração que descobriu, nos anos 1990, a improvisação como possibilidade de dramaturgia para a dança. Como uma das suas representantes, carrega traços da deficiência estrutural desse segmento, que é a falta de entendimento sobre o que seria o rigor artístico necessário para a sua produção.
No caso do Lugar do Outro, o elemento mais vulnerável está na escolha dos materiais que dançam. O elenco dança de forma competente, e com uma sintonia segura, indispensável para a linguagem da improvisação que emprega. A questão não está em como dançam, mas no que dançam.
Dirigidos por Alex Ratton Sanchez com clareza e pertinência, os quatro intérpretes tocam instrumentos, fazendo parte da ótima trilha de Gregory Slivar – lotada de rastros, sobretudo de Smetak (1913-1984), músico suíço que se mudou para o Brasil em 1937, e foi transformado pelos tropicalistas em uma referência. Trata-se de uma soma de talentos que demonstra poder ainda bem mais do que o que apresenta agora. E o comprometimento de todos eles é o fiador de que muito em breve, estarão no lugar de destaque que já demonstram merecer.
LUGAR DO OUTRO
Sesc Pinheiros. Rua Paes Leme, 195, telefone 3095-9400. 3ª e 4ª, às 21 h.
R$ 2,50 a R$ 10. Até 14/9.






A autora propõe uma “limitação da flexibilidade” para o grupo? Onde eles estão flexibilizando mal? Está falta de rigor os está fazendo perder o quê? Sua integridade artística? O tema do espetáculo? Perder…o que está se perdendo na alegada falta de rigor?
O parágrafo seguinte me pareceu pior, Diogo: um drible da vaca que ela pisou na bola! “A questão não está em como dançam, mas no que dançam”!!! O que é isso! Destrincho: 1) como dançar = processo escolhido para chegar a um resultado esperado (pode ser?) 2) O que dançam = resultado desejado que é tão fraco que nem merece o processo “até-que-legalzinho”? Isso sim é muita presunção!
Ano e meio atrás publiquei aqui neste mesmo blog, uma observação sobre a reação de Ziza Brizola a um texto desta mesma crítica de dança em questão.
Como já havia dito antes, apoio totalmente a atitude de expressar-se por este meio aqui, de acesso livre e livre informação. E apoio e reinvindico espaço para exercício da crítica, a qual vejo como potencial caminho de diálogo, construção de conhecimento, formação de público e democratização da arte. Em hipótese alguma, acredito eu, esta potência – extremamente poderosa quando veiculada por mídias de grande circulação – deve ser direcionada para criação de monstros ou enaltecimento de egos. Utópica ou ingênua minha declaração, acredito que é neste sentido que devemos caminhar – de acordo com os parâmetros acima colocados, de pertinência e utilidade do exercício crítico. E, considerando este (aqui) canal de comunicação e debate como um canal também muito poderoso, deixo as seguintes questões (direcionadas a artistas, futuros artistas, críticos, futuros críticos, espectadores e futuros espectadores):
O que faz de um texto crítico ser “positivo” ou “negativo” para o artista?
Qual a relevância disto para o público que assiste ou que lê?