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Treinamento de Parkour para Cia Nova Dança 4

26/09/2011

Tráfego foto de Catarina Assef

Parkour é conhecido como a arte do deslocamento. O conceito base dessa prática é deslocar-se pelo ambiente da forma mais eficiente possível com velocidade e estética usando apenas o próprio corpo. No caso do trabalho feito com a Cia Nova Dança 4, o Parkour é integrado no repertório de movimentos dos intérpretes e acaba por ser descaracterizado de seu conceito base. Não é utilizado para deslocar-se e sim como movimentação complementar a dança dos intérpretes.
Os movimentos estudados na prática do Parkour para transpor obstáculos naturais ou urbanos, para escaladas rápidas, equilíbrio, saltos, pulos, precisões, são ensinados com o intuito de misturar-se a movimentos de dança, e a representar situações corporais cênicas. A movimentação é ensinada exatamente como no Parkour, porém sem a utilização que caracteriza a prática. Na dança, não existe uma função de deslocamento e a idéia de eficiência também é outra.
No treinamento da companhia são utilizados colchões de diferentes tamanhos, plintos, barras de ferro originalmente fabricadas para o Ballet, estruturas de madeira e forramento de EVA. O uso desses materiais em si já descaracteriza o Parkour, que foi desenvolvido para interagir com um ambiente sem proteção, um ambiente não preparado para a prática, pois dentro de seus conceitos o Parkour também carrega a premissa de que o “Traceur”(praticante) se adapta ao ambiente, e não o contrário.
Parkour busca retomar a necessidade do corpo humano de lidar com a imprevisibilidade de seu entorno, o que hoje em dia perdemos, por termos criado um ambiente tão controlado, tão adaptado ao homem. Com calçadas, pavimentos, estruturas retilíneas, perdemos a imprevisibilidade do terreno, e assim o corpo não necessita adaptar-se para deslocar-se. Porém ao perder essa possibilidade os corpos contemporâneos não atingem seus potenciais, ficam presos a uma movimentação que raramente chega a mudar de plano. Com cadeiras, mesas e camas, o ser humano não precisa mais chegar ao chão, atingir o plano baixo, e isso trás conseqüências.
Na educação somática presente em todas as técnicas de dança estudadas pela Cia Nova Dança 4 a consciência do corpo substitui a falta de imprevisibilidade do ambiente, usa-se a propriocepção para alinhar o corpo, fortalecê-lo, e transitá-lo por diferentes planos. No Parkour, não é a autoconsciência que faz isso, é a necessidade de transposição de obstáculos, é re-significar nosso entorno, olhando para nosso ambiente com olhos de quem procura ser desafiado por ele, e não usá-lo como de costume. Quando se encara o ambiente dessa forma ele volta a ser imprevisível, ele novamente nos oferece a possibilidade de atingirmos nosso potencial morfológico.
Dessa forma, o Parkour e as diferentes técnicas de movimento e dança estudadas pela Cia Nova Dança 4, acabam por recuperar os potenciais morfológicos do corpo humano. Como a companhia estuda a movimentação do Parkour em ambiente controlado, o que retira grande parte do risco e da imprevisibilidade, novamente utiliza-se da educação somática para praticá-lo.
Vale lembrar que esse estudo é também por curiosidade estética e não só morfológica. A companhia se interessou, no início da Trilogia Influência, pela prática, para possibilitar saltos e quedas que caracterizaram o primeiro espetáculo “Influência – primeiros estudos”, e após essa montagem o interesse continuou vivo para os dois outros trabalhos da trilogia. No espetáculo “O Beijo” a presença do Parkour é sutil, deixa apenas rastros nos movimentos, mas no último trabalho da trilogia, “Tráfego” o parkour volta a ficar em evidência com a utilização de três barras de Ballet feitas de canos de ferro, onde diversos movimentos característicos aparecem.

4 Comentários leave one →
  1. 26/09/2011 15:41

    Deixa eu ser chato como de costume: No conceito base do Parkour, como passado por todos os veteranos, a estética nunca foi um objetivo ou preocupação, diferente do retratado no começo do texto :)

    • 26/09/2011 19:08

      Jean, eu discordo, acho que sempre foi, só que nunca foi assumido. Não há dúvidas para mim que os movimentos recebem um tratamento estético. Pode-se chamar de “limpeza” ou de “flow”, e isso sem dúvida é estética. Porém, diferente do que muitos praticantes acham, estética pode trazer mais agilidade, eficiencia e velocidade, não é uma característica ruim.
      Portanto do meu ponto de vista o conceito base do parkour inclui estética, apesar de vários veteranos dizerem o contrário. Mas valeu pelo comentário! abraço

  2. 26/09/2011 19:17

    Eu entendo o que vc diz, mas eu só enxergo essa busca por estética nas gerações mais recentes do Parkour, tipo 2003 em diante.

    Ao treinar ou ver vídeos de qualquer um de gerações anteriores (Belle, Yamakasi, etc) pode-se notar que não há uma preocupação com a estética ou limpeza dos movimentos. Os próprios yamaks satirizam quem procura muita “tecnicidade” nos movimentos, e fazem seus catleaps de cotovelos (“é mais seguro”). É o famoso “ser bruto”. No último video de Belle, a propaganda do barbeador, é notável em qualquer movimento dele a falta de preocupação com a estética e a preocupação com a eficácia (nem gosto mto do termo “eficiencia” nesse aspecto, evito usa-lo).

    Acredito sim que em determinados vídeos pode ter uma gracinha ou outra, mas os vídeos não retratam a prática, a origem e o pensamento.

    Não que eu seja contra a lapidação de técnicas ou flow, mas cada vez mais vejo que nas origens do parkour nunca houve essa preocupação.

    Abraço!

    • 26/09/2011 19:39

      eu acho apenas que é uma diferente estética. O Bruno também falou sobre o termo eficacia, até concordei com ele que talvez não fosse o melhor termo, mas decidi manter para não passar das duas laudas necessárias para esse texto ser publicado na revista da Cia Nova Dança 4. De qualquer forma gosto da estética da não estética tanto quanto da estética mais efidente das novas gerações…mas da visão de um bailarino parece impossível não ver como escolha estética.

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