"Opções"

Dançar é, também, movimentar-se em controle de sua autocrítica e percebendo as imagens e/ou sensações criadas.

As estratégias para abordar a própria autocrítica e as estratégias para gerar imagens e sensações  são inúmeras, infinitas. Porém há um único caminho para gerar estratégias novas, diferentes das utilizadas cotidianamente por cada pessoa. Um único caminho que permite você optar. Esse caminho é o da consciência.

A consciência de nossos atos é o que nos difere dos outros animais, ela nos possibilita complexificar pensamentos, sensações e ações. Animais não complexificam; são diretos, possuem pensamentos, sensações e ações guiados de forma direta pelo instinto de sobrevivência. Não digo que o humano não é guiado pelos mesmos instintos, acredito que somos, mas através da soma da memória e da consciência de nossos atos, somos capazes de transformar ações instintivas, de direcionar os impulsos naturais para produzir inutilidades incríveis.

Será que a produção humana é algo mais do que a complexificação do seu instinto de sobrevivência? Quando escrevemos um livro, construímos um prédio, uma cidade, criamos arte, guerra, tecnologias, linguagens, religiões, filosofias, ciências, não estamos apenas com medo da morte, tentando nos preservar no planeta por realizações? Não seriam todas essas atividades meios artificiais de imortalidade? No meu entendimento, a reprodução sexuada ainda é o único meio real de imortalidade da espécie. Especula-se muito sobre a conquista do ser humano sobre seu próprio destino, sua capacidade de imortalizar-se artificialmente. Não sei o quanto isso me interessa, mas essa busca de complexificação dos instintos naturais em algo belo e inútil me interessa. Isso que chamamos de arte. Pode-se argumentar que a arte não é inútil, que sua beleza e sua parte no que chamamos de cultura seja fundamental. Porém estou relativisando meu ponto de vista, estou falando da arte e sua inutilidade hoje, tão distanciada do instinto de sobrevivência, tão longe dos impulsos que a tornaram necessária na evolução da nossa espécie.

A arte feita hoje é importantíssima para a sobrevivência da nossa cultura, apesar de aparentemente não significar muito para a sobrevivência da espécie. A arte parece estar muito relacionada a capacidade do ser humano expor algo de seu interno a outras pessoas. Não devemos julgar as qualidades dos internos dos diferentes artistas, e por isso mesmo, não devemos julgar suas produções artísticas como certas ou erradas, não há certo e errado na arte. Julgaremos sim conforme nossos gostos, e isso é anterior ao que devemos ou não fazer, é algo que não se pode domar completamente. Podemos refinar nosso gosto, aprimorá-lo, exercitar o alongamento de nossas percepções e até tomar gosto, ou aprender a gostar de algo, mas tudo isso dentro de uma soma tão grande de variáveis e complexificações, que torna-se impossível creditar tal mudança a um simples “devemos gostar disto”. Quanto a certo e errado, obviamente não há controle sobre isso, mas digamos que seria mais elegante do ser humano não julgar algo do interno de outro nesses parâmetros mesquinhos. Porém, a questão que quero colocar, não está relacionada ao julgamento do outro e sim ao próprio julgamento.

Nosso autocrítico, nosso juiz, júri, advogado e tribunal interno, pode ser terrível, pode ser cruel e mesquinho, usar constantemente os termos “certo” e “errado” ou pior. Com o desenvolvimento da nossa consciência surgiu também nossa crítica. E somos animais extremamente críticos. E duramente críticos com nós mesmos. É nesse ponto que estratégias de auto-observação entram, para primeiro perceber, depois conhecer, e por fim trabalhar nosso autocrítico.

As estratégias são infinitas, pois podem ser desenvolvidas por qualquer pessoa, e na realidade sempre são. Quando oferecemos uma estratégia de auto-observação a alguém, por mais que se tente preservá-la, ela será alterada quando interiorizada por esta pessoa. Isso não significa que seja mais fácil criar as suas próprias estratégias de uma vez. Eu acredito, graças a anos de observação, que estratégias de outras pessoas ajudam mais na luta contra o autocrítico do que estratégias próprias. E isso acontece porque nosso autocrítico tem sistemas de defesa para se esconder de nossa autoconsciência, e por isso estratégias próprias tendem a nascer cegas ao alvo. Como exemplo, digamos que a estratégia sugerida seja andar normalmente com vinte pessoas assistindo. É muito provável que todos, que passem por essa experiência, reconheçam facilmente uma parte de sua consciência criticando seu andar.

Suponha-se que, percebido o autocrítico, a primeira fase, do reconhecimento, tenha acontecido. Geralmente precisamos de alguma exteriorização, no caso das artes cênicas podemos usar uma estratégia simples, como uma usada por diversos técnicos da educação somática cênica: levantar a mão toda vez que nos criticarmos em cena. Esse exercício, mostra com clareza o quanto existe de autocrítica em cada intérprete. Reconheceu-se que existe um autocrítico, e quanto ele fala, dois importantes passos de autoconsciência. Para conhecê-lo melhor, outras estratégias e exercícios devem acontecer, que permitam entender como ele sabota as ações, imagens e percepções do intérprete. Apesar de ter colocado dois exemplos guias para reconhecimento e quantificação do autocrítico, tenho dificuldade de exemplificar exercícios para “conhecimento” do autocrítico, pois eles exigem entendimento prático, e adaptabilidade total. Basta dizer, que existem inúmeros exercícios e eles funcionarão conforme cada pessoa, e são de alguma forma terapêuticos (apesar de não ter intenção). Exercícios para isso são encontrados na maioria dos trabalhos e pesquisas cênicas, mesmo que não se tenha consciência da real função (existem muitos professores e diretores das artes cênicas que criam exercícios maravilhosos intuitivamente, ajudando o intérprete a conhecer seu autocrítico, porém sem que nenhum dos dois saiba racionalmente o que estão trabalhando).

Chegando a última fase da autoconsciência do autocrítico, quando começamos a trabalhar nosso autocrítico, percebemos o quanto é importante exercitar e pesquisar eternamente as primeiras duas fases. E só se relembrando sempre de sua existência, e reconhecendo suas mudanças, que podemos exercitar o autocrítico, deixá-lo como um observador saudável de nossa arte e não um juiz/carrasco cruel. Também me abstenho de exemplificar exercícios extremamente práticos aqui, que podem trabalhar a autoconsciência sinestésica, ou cinestésica, ou racional, ou emocional, enfim, trabalhar a autoconsciência por diferentes ângulos, pelos mesmos motivos já ditos: eles exigem entendimento prático e adaptabilidade total (com isso digo que o aluno deve aprender na prática e o professor deve ser aberto a deixar seu exercício se transformar conforme a necessidade), o que deixaria na exemplificação e transcrição de algum desses exercícios, uma sensação de empobrecimento.

O resultado de exercitar a consciência do autocrítico é apenas um, que são vários. Ao trabalhar com autoconsciência, abrimos a possibilidade de complexificar nossas respostas, de mudar de estratégia, de optar por um caminho, mesmo que seja aquele direto e instintivo, mas agora este é tomado pelo caminho libertador da opção. Construímos através da consciência a maior habilidade de sobrevivência humana, a opção. E para usufruirmos dela com liberdade e prazer precisamos trabalhar a consciência de seu maior inimigo, o autocrítico.

"Options"
 by Diogo Granato

Dancing is also moving in control of your self-criticism, noticing the images
and/or sensations created.

The strategies to address your own self-criticism and the strategies to
generate images and sensations are countless and endless. But there is only
one way to generate new strategies, different from those used every day
by each person. A single path that allows you to choose. This is the path of
awareness.

Awareness of our actions is what sets us apart from other animals; it enables
us to complexify thoughts, sensations and actions. Animals do not complexify;
they are direct, they have thoughts, sensations and actions guided directly by
their survival instinct. This is not to say that the human being is not guided by
the same instinct – I believe we are –, but by adding memory and awareness
of our actions we are able to transform instinctive actions, to direct the natural
impulses to produce incredible uselessness.

Is human production anything other than the complexification of their
survival instinct? When we write a book, build a building, a city, create art,
war, technology, languages, religions, philosophies, sciences, aren’t we
just afraid of death, trying to preserve ourselves on the planet through our
achievements? Aren’t all of these activities artificial means for immortality?
My understanding is that sexed reproduction is still the only real means for
species immortality. Much is speculated on human beings’ conquest over their
own destiny, their ability to immortalize themselves artificially. I do not know
the extent to which this interests me, but this search for complexifying natural
instincts into something beautiful and useless interests me. This which we
call art. It may be argued that art is not useless, that its beauty and its part
in what we call culture is crucial. But I am relativizing my point of view, I am
talking about art and its uselessness today, so far removed from the survival
instinct, so far from the impulses that made it necessary in the evolution of our
species.

The art made today is crucial to the survival of our culture, although
apparently it does not mean much to the survival of the species. Art seems to
be closely related to the human capacity to expose something of one’s inner
self to other people. We must not judge the qualities of the inner selves of
different artists, and therefore, we should not judge their artistic productions
as right or wrong; there is no right and wrong in art. We judge according to
our tastes, and this is prior to what we should or should not do, it is something
that cannot be completely tamed. We can refine our taste, improve it, exercise
the stretching of our perceptions and even grow to like or learn to like
something, but all within such a large sum of variables and complexifications
that it is impossible to credit such change to a simple affirmation – “we

must like it.” As for right and wrong, there is obviously no control over this,
but let us say that it would be more elegant for a human being not to judge
something of another’s inner self in such petty parameters. But the question
that I want to raise is not related to the other’s judgment but to one’s own
judgment.

Our self-critic, our judge, jury, lawyer and inner courtroom can be terrible,
can be cruel and mean, and constantly use the terms “right” and “wrong” or
worse. With the development of our awareness our criticism also arose. And
we are extremely critical animals. And harshly critical of ourselves. This is
where strategies of self-observation come into play, first to notice, then to
meet, and eventually to work on our self-critic.

The strategies are endless, as they can be developed by anyone, and indeed
are always so. When we offer a strategy of self-observation to someone,
however much they try to preserve it, it will always be changed when
internalized by this person. This does not mean that it is easier to create one’s
own strategies instead. I believe, thanks to years of observation, that other
people’s strategies help more in the fight against the self-critic than one’s own
strategies. This is because our self-critic has defense systems to hide from
our self-awareness, and therefore one’s own strategies tend to be born blind
for the target. As an example, let us suppose that the suggested strategy is to
walk normally with twenty people watching. It is very likely that everyone who
goes through this experience will easily recognize a part of their awareness
criticizing their walk.

Suppose that, once the self-critic is perceived, the first stage, the recognition,
has taken place. Generally we need some exteriorization – in the case of the
performing arts we can use a simple strategy, which is used by a number of
scenic somatic education technicians: raising our hand every time we criticize
ourselves on stage. This exercise clearly shows how much there is of self-
criticism in each performer. It has been recognized that there is a self-critic,
and how much he speaks – two important steps for self-awareness. To get
to know him better, other exercises and strategies should take place, which
will allow one to understand how he sabotages the actions, images and
perceptions of the performer. Despite having placed two guiding examples for
recognition and quantification of the self-critic, it is difficult to offer examples
to get to know the self-critic, because they require practical understanding
and total adaptability. Suffice it to say that there are numerous exercises and
they will work according to each person, and they are somewhat therapeutic
(though not intently so). Exercises that can be found in most scenic studies
and research, even if their real function is not clear (there are many teachers
and directors of performing arts that create wonderful exercises intuitively,
helping the performer to meet their self-critic, but without any of them
rationally knowing what they are working on).

Arriving at the last stage of the self-awareness of the self-critic, when we start
working on our self-critic, we realize how important it is to forever exercise
and research the first two stages. Only by remembering his existence and
recognizing his changes can we exercise the self-critic, turning him into a

healthy observer of our art and not a cruel judge/executioner. I also refrain
from illustrating extremely practical exercises here, which can work on
synesthetic, kinesthetic, rational or emotional self-awareness, that is, which
can work on self-awareness through different angles, for the same reasons
that have been already mentioned: they require practical understanding
and total adaptability (by this I mean that the student must learn in practice
and the teacher should be open to let exercise transform itself whenever
necessary), which would lead to a feeling of impoverishment in the attempt to
illustrate and transcribe some of these exercises.

The result of exercising the self-critic awareness is only one, which are
several. When working with self-awareness, we open up the possibility of
complexifying our responses, of changing strategies, of choosing a path, even
if it is the direct and instinctive one, but now it is taken over by the liberating
path of choice. We build through awareness the greater ability of human
survival – choice. And in order to enjoy it with freedom and pleasure we need
to work on the awareness of its greatest enemy – the self-critic.

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